quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O PAI PERDIDO

Quatro e  meia da manhã, João Severo, agricultor, homem humilde e simples, viúvo há um ano, acordou mais uma vez sob fortes gritos do pequeno Carlos Severo, seu filho de apenas doze anos de idade, acometido de um terrível tumor cerebral que já tem comprometido boa parte do lado direito. Sem muito questionar o filho, João o põe em seu carro, uma velha camionete, sacrifício de anos de economia, que servia apenas para o transporte de capim e leite em sua pequena propriedade arrendada.
João tinha acabado de perder a mulher de forma trágica e  o que lhe restou da família foi um único filho que ele muito amava. João era um autodidata, aprendeu dirigir sozinho, nunca  foi a uma autoescola, nem parar tirar a habilitação, também não podia, era analfabeto. Por causa disso  restringia-se a dirigir no pequeno sítio em que morava.
 Com o filho em grito, João levou-o  ao hospital, na cidade mais próxima: Boi-só, um percurso de sete horas. Fosse um carro novo teria levado a metade.
O garoto ficou internado. João voltava para casa triste, porém para completar sua infelicidade, ele foi parado em uma blitz, apenas uma viatura da polícia militar. João explicou a situação e não obteve êxito. Teve a velha camionete apreendida e tomou uma multa por não ter a habilitação. João severo voltou a pé para casa, já que não tinha levado dinheiro e pago propina aos policiais que o tinham parado para liberar seu carro.
Com o filho internado, sem dinheiro para pagar a multa e retirar o veículo, João entrou em depressão. Era um ano muito difícil, a seca castigava, havia morrido algumas de poucas cabeças de gado que tinha. João Severo não tinha dinheiro nem para ir ao hospital visitar seu único filho.
João entrou em falência, vendeu tudo do pouco que ainda lhe restava. Caiu em desgraça. Sumiu das redondezas.  Foi para outra cidade tentar a sorte, não teve êxito. Caiu na bebedeira. 
Em um determinado dia, em um bar, alguém estava se despedindo de uma outra pessoa, pois estava indo fazer uma viagem para Boi-só, então  João lembrou de seu filho que tinha deixado internado.  João pegou uma carona.
Lá chegando, soube que seu filho tinha sido adotado por um casal que o tinha levado. 
-Mas é meu filho – Disse João Severo.
--O senhor o deixou aqui já fazia muitos anos. Nós não sabemos para onde foi. – Disse a enfermeira. – Ele não tinha noção que já fazia tanto tempo.
--Como ele estava quando saiu daqui? – Quis saber João.
--Bem, nós não temos muitos recursos... fizemos o que podíamos... é uma cidade pequena e esse tipo de tratamento é muito difícil...
-- Um  dia eu encontrarei meu filho! – Disse João e saiu tristemente.
João Severo chorou  copiosamente noite e dia. Sentindo-se traidor de seu próprio filho, João  levantou cedo do banco da praça em que dormia, mexeu em vários papéis que guardava em sua mochila e viu o recibo da multa que  tinha sofrido, mas sempre guardou, pensando em um dia que pudesse pagar. Dessa vez João olhou diferente para a multa e lembrou que foi a partir dela que tudo começou a ruir em  sua vida. --Vou lutar, vou procurar meu filho! Disse João consigo mesmo. -- tomou um banho no chafariz da praça, já havia alguns dias que não sabia o que era isso, penteou-se, vestiu  sua  melhor roupa e foi até o fórum. Explicou a situação a um defensor público que  escutou e o orientou com o processo.
-- Senhor, gostaria de dizer que vai demorar um pouco a primeira audiência. —Disse o defensor.
-- Por quê? – Quis saber  João.
-- Estamos sem Juiz. O juiz daqui foi transferido. Estamos  esperando um novo.
-- Eu espero por esse novo juiz. Preciso recomeçar minha vida e encontrar meu filho. É tudo que eu quero. -- Disse João
-- Senhor Severo, só preciso de seu endereço para completar a ficha do processo. – Falou o defensor.
-- Desculpe, moço, mas não tenho endereço... Hoje moro na praça.
-- O senhor ainda sabe capinar? – Perguntou o defensor.
-- Sim, claro. Passei minha vida fazendo isso.
-- Então o senhor já tem um endereço. O endereço do meu sítio. Estou precisando de uma pessoa para cortar o capim  que está muito alto. O senhor me aguarde que vou levá-lo lá.  – Disse o defensor público.
João severo ficou muito feliz.  O defensor o levou até o sítio.
--Seu João, o senhor vai ficar aqui neste sítio até que tudo se resolva.
Após longos e longos dias,  João foi ao fórum para sua primeira audiência.
Ao  entrar na sala do juiz, João não entendeu o que está acontecendo, o juiz estava lendo o processo e chorando. 
-- Senhor, o que está acontecendo? – Perguntou João perturbado.
O juiz, ainda chorando, levantou-se  e abraçou  João e disse: Pai... Sou eu seu filho Carlos. O que o senhor estava procurando  acaba de encontrar. Deus me curou, pai, daquela doença. Hoje sou um cristão... Consegui porque Deus me deu a vitória e será feita justiça a ti também, meu pai.

                                                                                                                                 Joerlândio Cordeiro

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