sábado, 16 de agosto de 2014

Nóia

favela
vela
veia
vê-la
vi é ela
viela
vinha ela
lá tinha
latinha
latrina
tadinha

morreu.


(JSC)

Sonho branco


Comprado com amor,
Vestido por amor,
Tirado para o amor;
Antes do luxo,
Agora no lixo,
Cama  de bicho. 
Ruído por traças  
Jogado no cisco,
Sujo e desconhecido.
Vestido branco com pérola,
Outrora  uma linda história,
Agora sem o fim de novela.

(JSC)

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Amor Ressuscitado

Arranquem-me olhos
E deem a quem quer enxergar,
Cortem-me as mãos
Para o amputado que precisa usar.


Tirem-me os membros
Inferiores para o manco,
O fígado, os pulmões, rins,
Coração a quem precisar.


Se necessário, estudem minha massa.
Meus últimos dentes aos acadêmicos,
E não desfrutando do que sobrar,
Queimem e joguem ao mar.


Lá viajarei aos poucos
Até o resto da cinza afundar.
Se me enterrarem,
Também voltarei a amar.

(JSC)

Psicologia de um vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Produndissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
Augusto dos Anjos

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Cafetina




Preciso vender este, moço.
Preciso vender este moço.
Preciso vender para
Manter o  bolso.
Preciso do  troco
Que troco pelo moço.
Esse relógio é bom, moço?
Dê a mim, moço;
Não ao  moço.
Do moço só o  almoço.
Leve-o e goze o tempo,
Quanto mais, mais me sustento.
Se deste não apreciar,
Tratarei de outro encontrar.


Joerlândio Cordeiro

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Licença poética

Licença poética é uma incorreção de linguagem permitida na poesia. Em sentido mais amplo, são opiniões, afirmações, teorias e situações que não seriam aceitáveis fora do campo da literatura.
A poesia pode fazer uso da chamada licença poética, que é a permissão para extrapolar o uso da norma culta da língua, tomando a liberdade necessária para utilizar recursos como o uso de palavras de baixo-calão, desvios da norma ortográfica que se aproximam mais da linguagem falada ou a utilização de figuras de estilo como a hipérbole ou outras que assumem o carácter "fingidor" da poesia, de acordo com a conhecida fórmula de Fernando Pessoa ("O poeta é um fingidor"). A licença poética é permitida para que o escritor tenha toda a liberdade para manipular as palavras, para que ele possa passar tudo o que pensa ao leitor.

Wikipedia

Lembre-se que "A licença poética é uma porta, não uma porteira". 

(JSC) 

VERSO LIVRE

No fazer poético, os versos livres, também chamados de versos irregulares, não utilizam os esquemas métricos, nem as rimas, ou qualquer outro padrão musical, mas preocupam-se tão somente com o ritmo e a musicalidade natural da fala ou leitura. Alguns poetas e estudiosos afirmam que os versos livres possuem afinidades com a prosa, enquanto outros enxergam uma grande autonomia e distinção nessa forma poética. De qualquer forma, é inegável que os versos livres garantem ao poeta uma maior licença para se expressar e possuir maior controle sobre o desenvolvimento da sua obra. Consequentemente, os versos livres produzirão uma poesia espontânea e individualizada.

A consagração e fama desse verso no país viria, contudo, com o livro Pau-Brasil (1925), que não é só a obra de estreia em poesia do escritor Oswald de Andrade (1890 - 1954), como também um dos mais inovadores de toda a poesia produzida até então no país. O livro trazia versos livres em tom de prosa e uma linguagem simples e coloquial muito ousada para os padrões poéticos vigentes (e até mesmo se comparada aos versos livres de Guerra Duval). É notória tal ousadia no poema "Prenominais", que se encontra na segunda parte do livro, chamada "Poemas da colonização":

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da nação brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro.

 http://www.edtl.com.pt

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Como Ler e Escrever Poesia

(...)
 Transcrevemos dois poemas (cuja autoria foi omitida). Pedimos que faça uma avaliação: atribua a cada um deles um conceito - ótimo, muito bom, bom, regular ou fraco.
     Trata-se, evidentemente, de um teste: ele pode servir para avaliar a noção que você tem acerca de poesia.


LUAR
A lua majestosa
passeia
no tapete das nuvens
na imensa quietude
do universo.


E com seus raios argentinos
rompe o véu negro da noite
com claridade branda e suave,
e faz da terra
um manto branco de virgem.


LUA CHEIA
Boião de leite
que a noite leva
com mãos de treva
pra não sei quem beber.
E que, embora levado
muito devagarinho,
vai derramando pingos brancos
pelo caminho.


Como você avaliou o primeiro poema - "Luar"? Ótimo? Muito bom? Pois saiba que ali não há poesia. Não há poesia nesse poema simplesmente porque não existe ali a função poética, a linguagem poética, a maneira peculiar, diferente, nova, artística, criativa de expressar. A linguagem do poema "Luar" é um amontoado de lugares-comuns - palavras e expressões que andam na boca de todo mundo ou de um escritor ou poeta principiante. "Lua majestosa", "tapete de nuvens", "imensa quietude do universo", "raios argentinos", "véu negro da noite", "claridade branda e suave" e "manto branco de virgem" são expressões gastas pelo uso, surradas, sem originalidade, sem criatividade. E poesia é justamente a antítese de lugar-comum.

     A primeira pessoa que assim tivesse se expressado seria poeta, e seu poema poderia ser classificado de poesia.

     O poema "Luar" é de autoria de Gil Dumont Vêneto. Trata-se de um poema "ad hoc" (escrito para esse fim), para exemplificar o que não é poesia.


     O segundo poema - "Lua Cheia" - é de Cassiano Ricardo. Observe como o poeta é original ao identificar a lua cheia com um boião de leite, isto é, com um recipiente de vidro, cheio de leite. Trata-se de uma metáfora. Originalíssima. Criativa. Poética. Surpreendente. Observe também que Cassiano Ricardo considera a noite uma pessoa (personificação): "que a noite leva com mãos de treva". Há, finalmente, mais uma metáfora: o poeta concebe os raios do luar como se fossem "pingos brancos", que caem do "boião de leite".

     Não bastasse, o autor imprimir ritmo ao seu poema: há o predomínio de versos com quatro e seis sílabas, com acentuação bem definida.

     Em resumo, as metáforas originais, a personificação, o ritmo e a acentuação dão ao poema "status" de poesia.

 (...)
PucRS