quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Como analisar um poema

Um Carnaval
 
Vem ao baile vem ao baile
Pelo braço ou pelo nariz
Vem ao baile vem ao baile
E vais ver como te ris

Deixa a tua tristeza roer
As unhas de desespero
Deixa a verdade e o erro
Deixa tudo vem beber

Vem ao baile das palavras
Que se beijam desenlaçam
Palavras que ficam passam
Como as chuvas das vidraças

Vem ao baile oh tens de vir
E perder-te nos espelhos
Há outros muito mais velhos
Que ainda sabem sorrir

Vem ao baile da loucura
Vem desfazer-te do corpo
E quando caíres de borco
A tua alma é mais pura

Vem ao baile vem ao baile
Pelo chão ou pelo ar
Vem ao baile baile baile
E vais ver o que é bailar.

                                          Alexandre O´Neil, Poesias Completas,
                                          Imp.Nac. - Casa da moeda

1.       Mancha gráfica do poema
  Observando o poema, facilmente se constata que este desenha uma mancha uniforme e regular sobre a folha, os versos iniciais estão grafados com maiúsculas e o único sinal de pontuação que apresenta é o ponto final que encerra o texto. O poema não cria efeitos visuais.

2.       Aspectos formais
A medida dos versos
Para determinar a medida dos versos, contam-se as suas sílabas métricas, isto é, aquelas que se pronunciam aquando da sua leitura.
Vem / ao / bai / le / vem / ao / bai /le = 7 sílabas métricas
   1       2      3      4      5        6       7
A contagem pára na última sílaba tónica ( que poderá ser a última palavra, a penúltima ou a antepenúltima)
De acordo com o número de sílabas métricas, os versos classificam-se em: monossílabos, dissílabos, trissílabos….

O que podemos concluir?
Ao nível de estrutura externa, o poema está escrito em versos. A maioria dos versos tem sete sílabas métricas (heptassílabos). Os versos, por sua vez, agrupam-se em seis estrofes, com um número invariável de versos (quatro), descrevendo, assim, uma estrutura regular constituída por seis quadras.
3.     
  Recursos fónicos
A rima: esquema rimático e classificação da rima.
Determinar o esquema rimático consiste em verificar, assinalando com uma letra, os sons que se assemelham no final de cada verso da estrofe do poema.
Vem ao baile vem ao baile    a
Pelo braço ou pelo nariz   b                                   rima cruzada
Vem ao baile vem ao baile      a
E vais ver como te ris  b

Deixa a tua tristeza roer  c
As unhas de desespero         d                                                                  interpolada        
Deixa a verdade e o erro       d             emparelhada
Deixa tudo vem beber    c

De acordo com os sons que se combinam no final de cada verso, classifica-se o tipo de rima de cada estrofe e / ou do poema:
1ª e última estrofes: rima cruzada
2ª, 3ª, 4ª e 5ª estrofes: rima emparelhada e rima interpolada.
O que podemos concluir?
O poema apresenta o seguinte esquema rimático : a b a b; c d c d ; e f f e ; g h h g; i j j i; a l a l, a rima é pois, cruzada, na primeira e última estrofes, e emparelhada e interpolada nas restantes.

O ritmo

Lendo o poema, apercebemo-nos de que cada verso é lido como contendo dois segmentos, o que resulta da combinação de acentos tónicos e átonos. À cadência que resulta dessa leitura chamamos ritmo. O poema tem pois um ritmo binário.
Repara!
Vem ao baile /vem ao baile
Pelo braço  / ou pelo nariz
Vem ao baile /  vem ao baile
E vais ver / como te ris

Outros efeitos sonoros
·         a aliteração
A leitura da globalidade do poema deixa perceber a enfade que recai na aliteração dos sons /v/ e /b/Vem ao baile /vem ao baile

O que podemos concluir?
O ritmo binário sugere o embalar da música e o evoluir dos pares a dançar.
A aliteração, por seu lado, criando musicalidade, reforça a insistência no convite dirigido ao sujeito poético.

4.       Recursos morfossintácticos

·         tipos de frase

No poema predominam as frases do tipo imperativo veiculando um convite dirigido a um tu - Vem ao baile vem ao baile; Deixa a tua tristeza para trás.

·         Classes morfológicas predominantes
Sobressaem os verbos flexionados no modo imperativo, na segunda pessoa singular. Também na segunda pessoa do singular surgem vários pronomes pessoais: como te ris; perder-te nos espelhos, entre outros.
·         Anáfora
Repara no inicio destes dois versos seguidos: Deixa a verdade e o erro / Deixa tudo vem beber

O que podemos concluir?
A mensagem do poema centra-se num tu, ao qual se dirige insistentemente um mesmo convite.

5.       Figuras de estilo
Personificação
Vem ao baile das palavras / Que se beijam desenlaçam
Comparação
Palavras que ficam passam / Como as chuvas das vidraças

O que podemos concluir?
Estas figuras de estilo sugerem a ideia dos encontros fortuitos que ocorrerão no baile.

6.       Tema

O título - Um Carnaval
Embora o tópico apresentado pelo titulo não seja desenvolvido ao longo do poema, este leva-nos a supor que o baile para o qual se convida o tu será um baile de Carnaval
Campo lexical
Os vocábulos Carnaval, baile, bailar loucura, associados a formas verbais no imperativo, concorrem para o tema desenvolvido no poema.

O que podemos concluir?
O tema do poema:
-um convite
-um baile de Carnaval
 
http://vanda51-emportugues.blogspot.com.br
 

Dissertação-argumentativa - ENEM

1. Estética: uso adequado das margens, das linhas e limpeza
Quando a professora nos anos iniciais do Ensino Fundamental insistia em entregarmos textos limpos e alinhados, aposto que muita gente reclamava e pensava ser isso uma bobagem, mas ela tinha toda a razão. A estética é um aspecto essencial em uma redação, pois ela deve ser legível para o corretor e para qualquer leitor. Além disso, usar as margens da folha definitiva da prova é fundamental para o melhor aproveitamento da mesma, pois perder espaço por não usar adequadamente as margens e não saber espaçar parágrafos, por exemplos, são erros primários que não podem ser cometidos por alunos de nível Médio.
2. Título significativo e introdução que apresenta o tema com eficiência
Apesar do Enem, em seu Guia do Participante 2013, afirmar que o título é um item opcional, acreditamos que ele é parte integrante de uma dissertação-argumentativa e deve sim ser colocado e de maneira significativa, de modo que chame a atenção do leitor e que estabeleça algum tipo de relação com o que foi dito na redação.
Como você, candidato ao exame, deve ter em mente que todo e qualquer leitor deve ler e compreender seu texto, e não apenas o corretor, o tema deve ser apresentado a ele, na introdução, com eficiência, pois o leitor deve conhecer a proposta de redação por meio do seu texto. Assim, a introdução deve, como o próprio nome diz, introduzir de forma clara e objetiva o tema da proposta de redação ao leitor.
3. Adequação ao tema e à proposta com estabelecimento de relações com outras situações e leituras
Toda e qualquer redação deve estar escrita de acordo com o tema e com o recorte estabelecidos pela proposta. Textos que fogem ao tema, parcial ou totalmente, demonstram que o candidato não entendeu o que era para ser feito. Atender à proposta de redação é o mínimo que se espera de uma redação.
Textos acima da média superam as expectativas por trazerem relações e estratégias argumentativas inesperadas no bom sentido, de forma singular, pois traçam paralelos, comparações, exemplificações do tema com outras situações e leituras.
4. Dados na dissertação: há escolha dos elementos da proposta, argumentos críticos e relações consistentes
No entanto, não basta relacionar o tema com outras situações, leituras e diversas áreas do conhecimento se isto não é feito de maneira consistente. Há textos que trazem muitas informações, mas nada dizem, de fato, pois não foi realizada, por parte do autor, uma escolha adequada dos elementos da proposta e, consequentemente, os argumentos não são críticos e as relações consistentes. O “menos” é “mais”: esta máxima para a moda serve também para redações.
5. No desenvolvimento, a utilização dos recursos coesivos é sofisticada, clara e diversificada
Esta dica é semelhante à competência do Enem acerca dos recursos linguísticos empregados na redação. Os efeitos de sentido devem estar postos de maneia sofisticada, clara e diversificada.
6. Há coerência interna e externa, ótima articulação e progressão adequada entre as ideias (paragrafação)
O texto deve ter coerência interna (entre as ideias nele contidas) e externa (entre ele e a realidade, ou seja, ser verossímil), ser articulado e ter progressão, isto é, fazer sentido para o leitor.
7. A concordância, regência e colocação estão de acordo com a norma culta da língua
Toda a redação deve estar escrita segundo a norma culta da Língua Portuguesa e isso significa, dentre outras coisas, seguir regras de concordância, regência, conjugação verbal, ortografia, acentuação, colocação etc.
8. Vocabulário variado, demonstrando uso pessoal do léxico e boa adequação gramatical
O candidato ao Enem deve demonstrar ter um vocabulário diversificado e adequado ao tema proposto, sem repetição excessiva de palavras.
9. A conclusão retoma a tese e explora adequadamente as estratégias de finalização
Conclusão que retoma a tese, como já abordamos em outras publicações, é apenas uma das maneiras de se concluir uma dissertação-argumentativa. O importante em relação a conclusão é que esta parte do texto, de fato, finalize-o da melhor maneira possível.
10. Cumprimento do tipo e/ou gênero, com adequação à estrutura textual
A prova de redação do Enem requer uma dissertação-argumentativa e, assim, o candidato deve escrever este tipo textual. Não adianta atender ao tema se não escrever o tipo textual ou o gênero exigido.

 InfoEnem

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Quem sou eu?




Não sei por que as pessoas dizem que sou branco, porém de alma negra
Que sou pobre, mas rico, pois estou com Deus
Que sou amigo, porém eles não confiam em mim
Que sou aluno da vida, mas nunca fui à escola
Que sou órfão, porém nunca vi meus pais
Que sou solitário, mas vivo entre as pessoas
Que sou um sem teto, porém durmo onde chego
Que sou velho, mas nunca fui me alistar
Que sou um morto, porém ainda me sinto vivo
Que sou um guerreiro, mas nunca fui a uma guerra, pois só luto contra a fome.


(JSC)

O (a)mar



O homem passeava pelo mar
O homem passeava e admirava o mar
O homem passeava, admirava e cantava para o mar
O homem passeava, admirava, cantava e chorava no mar
O homem passeava, admirava, cantava, chorava no mar de amar...

(JSC)

AMOR ADOLESCENTE - A FILA ANDA

Não, não ficarei aqui te esperando.
O tempo está passando,
Tenho que caminhar.
Te esperar,
 Agora não dá; Há tantas pessoas
Que preciso conhecer,
E, certamente, amar.
Volta, vai para mais longe,
Não tens mais o direito de me tocar,
Perdeste quando não me compreendias
Ou fingias não me entender;
Agora pertenço a mim mesmo.
Chorar, espera que não vais ver!
(JSC)

Minha fatalidade

Minha fatalidade é uma fatalidade de babel,
Onde sofro sombriamente,
Onde os meus olhos fúlgidos queimam.
Por isso sinto-me autômato
Que outrora tinha uma liberdade radiante e
Hoje meu corpo não passa de um pavilhão abandonado
Em uma órbita de um universo sem fim.


(JSC)

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Putrefação da humanização


Povoa na micose do meu cérebro
Pensamento pútrido sobre
A nefasta negra cruz
O corvo que para o caixão seduz
Mesmo aquele que deseja viver.

Envolve o corpo de rama
Cava na escura lama
Mais uma cova fria para
Outra orgia dos vermes
Que querem comer. 

Com a chegada do nutriente,
Os germes indiferentes
Enfeitam-se para o banquete;
Abastado ou desprovido  
O corpo enrijecido serve de deleite.

Porta cerrada, depois da entrada,
Cadáver de caixa fechada,
Aberto à navalha da fome;
Só a carcaça tornar-se-á
Daquilo que foi homem.


Joerlândio Cordeiro


terça-feira, 19 de agosto de 2014

Vassala




 Mais uma vez vestida de luto
 Bruto o que assim te fez
 Arrancando mais um filho  teu
 Carregado pelo próprio rei.

Embriagada nestas trevas
Sustentada não sei pelo o quê
Despida de sua beleza
Caminha sem nada ver.

Escrava do dia e da noite
Que nem sombra consegue ter
Isolada de todos  os outros
Soturna  até o amanhecer.

A rainha branca voltou
Diferente do olho abrasador
Do insolente que teu filio arrastou
Traz-te  unguento, alivia  a dor.

Madruga com a ancila
Até o  majestoso voltar
e  de forma grandiosa
Sua cria a ela novamente dá.

Joerlândio Cordeiro


domingo, 17 de agosto de 2014

É não é




Nem todo o poema é poesia
Nem todo o riso é alegria
Nem todo o conto é fantasia.

Nem todo o quadro é  beleza
Nem todo o choro é tristeza
Nem todo o rei é realeza.

Nem todo o silêncio é esquecimento
Nem todo o  tempo é  momento
Nem toda a dor é sofrimento.

Nem toda a fome é por comida
Nem toda a sede é por bebida
Nem toda  a palavra  é pra ser  dita.

Nem toda a  esposa é uma mulher
Nem toda  a crença é fé
Nem tudo é o que é.

Joerlândio Cordeiro