sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Análise do Poema José


"Não existe vento favorável para aquele que não sabe para onde vai." - Arthur Schopenhauer




José 

Carlos Drummond de Andrade 


E agora, José? 
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já  não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua bilbioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro
sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho do mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?
 
Carlos Drummond de Andrade

Análise:
O poema José mostra-se com uma visão pessimista do cotidiano. Seu tema central  é a solidão do homem, sua falta de espaço; revela uma profunda angústia pela vida.
Inicialmente, observamos que a alegria e a felicidade já existiram, mas agora, "a festa acabou". Em seu lugar ficou a escuridão, o frio, o abandono: José está só.
"E agora, José? A festa acabou" (A alegria se foi... situação de perda), "a luz apagou" (escuridãotrevas), "o povo sumiu" (solidão, abandono), "a noite esfriou" (noite e frio não só no ambiente físico, mas também na alma, na vida de José.]
As interpelações, cada vez mais repetidas, ganham maior intensidade e significação, pois reforçam a situação do homem que já não tem ambiente.
"José" é a metonímia do próprio autor e/ou de um povo, cuja situação é repetida dia a dia, pois não há destino certo: na escuridão, sem amigo e sem abrigo. O poema José é simbolo de uma época de massificação, de uma "época de objetos e não de sujeitos". (Sant'anna).
"José" é um heterônimo do autor. É  capaz de amar, de ser irônico, pois , "zomba dos outros", faz versos, mas que ironia: é desconhecido; vive no anonimato; "José" não tem sobrenome, não se sabe de onde veio nem para onde vai. "Você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta?" Apesar do anonimato José não é um alienado; ele ama, é irônico, escreve e protesta. Ele não é  indiferente aos acontecimentos sociais. Seu anonimato e solidão não são opcionais foram-lhe impostos. Não foi José quem acabou com a festa, apagou a luz, ele não escolheu o anonimato, uma vez que faz versos  e protesta, não se recolheu para amargar a solidão: foi o povo que sumiu.
"José" é carente de tudo: "está sem mulher", "está sem carinho". Diante  do abandono, sem mulher, sem carinho, José não encontra nem palavras: "está sem discurso".  A sua situação só se agrava, ele não pode recorrer nem a um paliativo, realizando uma fuga  através do cigarro e da bebida: ele não pode refugiar-se na bebida ou em qualquer vício. 
É muito significativa a colocação dos verbos em face às coisas da vida. Até suas esperanças frustraram-se, pois, "o dia não veio", a vinda de um novo dia significa novas oportunidades, mas para José ele não veio. O bonde e o riso não vieram; nem mesmo de mentiras ou de ilusões ele pode viver. O autor passa um sentimento de quem perdeu a hora certa  de agir, de lutar:  "tudo mofou" "acabou", "fugiu"., não há esperança de recuperação, apenas um vazio de tudo.  Tudo é rotina e monotonia. Não pôde realizar-se como pessoa humana, pois está só; ele se expressou através de seus versos e protestos mas quando percebe "tudo acabou", tudo fugiu", tudo mofou". "E agora, José?" ,
Encerrando em si antíteses, José é marcado por sentimentos opostos, conflitos que não conduzem à solução. É uma pessoa apegada às coisas materiais, representadas aqui pelas palavras "gula, (alimento) lavra de ouro, (riqueza) biblioteca (conhecimento)",   mas que tem incoerências, e apresenta grande fragilidade e vulnerabilidade: representadas por seu terno de vidro.
"José" sente-se impossibilitado de agir. Tudo lhe parece inútil e desprovido de significado. "Com a chave na mão quer abrir a porta, não existe porta;"  Frente à sua frustração e desesperança, José quer morrer no mar, mas nem isso lhe é permitido porque  não existe mar no qual possa morrer.   Sente-se encurralado, não pode nem morrer. Quer voltar para Minas que é seu ponto de equilíbrio, "Minas não há mais", ou seja,  Minas dos seus sonhos, da sua infância mudou e José também.
Mas José deveria reagir, manifestar-se. Deveria gritar, gemer, cansar, dormir, morrer, mas não morre. José é  duro na queda. Feito de ferro, talvez o mesmo ferro que nutre Itabira, terra do autor. José assume uma extrema passividade.
Totalmente acuado, "sozinho no escuro qual bicho-do-mato" a ele resta a solidão e o abandono, já que José não tem nem a fé religiosa para se refugiar "sem teogonia". Não tem onde se apoiar "sem parede nua para se encostar"  Também não tem  recursos para fugir"sem cavalo preto que fuja a galope," sem destino  ele ainda assim não pára continua sua marcha  sem rumo. "Você marcha José! José, para onde?
José é um poema de desencontros, marcado por um profundo ceticismo. O homem não  encontra a si mesmo. Perdeu-se. Está encurralado, num verdadeiro beco sem saída. Sem qualquer direção ele prossegue: para onde, José?
O poema de Carlos Drumond de Andrade aplica-se aos milhares de "Josés" que transitam pela vida sem serem notados, ouvidos ou vistos. Aos "Josés" condenados pela sociedade à solidão e ao anonimato, que não tiveram nenhuma oportunidade de se realizar como homem. Que gritam, protestam, amam, mas têm seu grito sufocado pela indiferença, seu protesto ignorado e seu amor não correspondido, mas que continuam se arrastando pela vida sem saber onde vão chegar.

Análise realizada em cumprimento  às exigências da disciplina -  Literatura Brasileira - Prof. Carlos Lacerda na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Caratinga - FAFIC  - 1982 pela Equipe:
Cleuza
Conceição
Mara e
Rose 

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